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Duas matérias chamaram a atenção na “Folha de S.Paulo” há alguns dias. Na editoria de Mercado o título era “Empresas protelam vendas de fertilizantes, e preços explodem”. Já em Cotidiano podia-se ler o lado mais perverso dessa ganância: “Defensorias veem aumentar casos de furto de comida durante a pandemia”.

No entanto, se recuarmos ainda mais veremos que batemos recordes de produção de alimentos, em especial grãos, todos os anos. Para a Embrapa, o país produz comida suficiente para alimentar algo em torno de 1,6 bilhão de pessoas, ou seja, um excedente de 1,4 bilhão, se considerarmos que o Banco Mundial calcula que tenhamos hoje quase 213 milhões de habitantes.

Já falei sobre isso aqui, mas agora vivemos um momento crítico e não é possível deixar de retomar o tema. Até porque o próprio presidente da República afirmou recentemente que o país não irá tomar medidas para conter as exportações de alimentos como vem ocorrendo em alguns países.

Além disso, os estoques reguladores, que serviriam para evitar desabastecimento e manter os preços em níveis no mínimo aceitáveis, simplesmente não existem mais.

Ou seja, quando Bolsonaro diz que o governo não tem como interferir no mercado e fazer o controle dos preços, pela primeira vez ele não está mentindo. Afinal, os armazéns da Conab estão vazios. Ou seja, o principal instrumento para garantir alimento na mesa dos brasileiros, principalmente os mais pobres, foi ignorado solenemente pelo governo desde a posse e hoje não pode ser utilizado.

Já a proibição das exportações, uma atitude coerente neste momento em que vivemos a dúvida sobre a produção agrícola devido a guerra no Leste Europeu, afetaria interesses dos grandes latifúndios e das indústrias do agronegócio, processadoras de alimentos. Bolsonaro jamais teria a coragem de confronta-los, muito menos em ano eleitoral.

Enquanto isso, cresce constantemente o número de pessoas passando fome no país. E o que faz o presidente? Libera o dinheiro do FGTS, que nunca foi do governo, mas das próprias pessoas que ele diz estar beneficiando.

Na realidade, o governo federal não tem demonstrado nenhuma preocupação com a insegurança alimentar que atinge cerca de 100 milhões de brasileiros. E isso em um país que poderia alimentar cinco vezes a sua população.

Por: Renê Gardim


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